Conhecendo Ellen Maria

2 12 2008

Após um longo período de seca nas postagens do blog, chego trazendo novidades. Adentramos agora no mundo das entrevistas, no post de hoje vamos conhecer um pouco mais sobre a Ellen Maria um dos mais novos talentos da literatura contemporânea, e dos promissores. =)
A Ellen cursa Letras na USP, trabalha na livraria Edusp, é uma ótima aluna e ainda com toda sua rotina atribulada, tem textos publicados em três livros e está a caminho do quarto. Com certeza uma figura que merece a nossa devida atenção, a seguir acompanhem as perguntas feitas pelo basculante:

Ellen

Ellen

– No Brasil o campo para os escritores não teve sempre uma fama de promissor, contudo, você se encontra no terceiro livro publicado. O que pensa a respeito disso? Houve algum diferencial?

– Fontes de inspiração?
Ah muitas! Caio Fernando Abreu, Daniel Galera, Joca Terron, Machado de Assis, John Fante, Albert Camus, Eduardo Galeano, Adolfo Bioy Casares, Milan Kundera são alguns dos que mais leio.

Acho que o Brasil é muito promissor, rs. Grande parte dos meus escritores preferidos são brasileiros. Os livros estão aí, nas prateleiras das livrarias, em bancas de jornal, até em botecos (dica: Mercearia São pedro, na Vila Madalena). Estão lá, esperando os leitores.
É verdade que os escritores não ganham muito, mas isso não é exclusividade do Brasil, no mundo todo escritor ganha mal, artistas em geral. Ou você escreve Literatura à la Paulo Coelho, Dan Brown, Augusto Cury ou Stephen King, ou você tem que se virar fazendo outras coisas. Marcelino Freire, por exemplo, ganhou o prêmio Jabuti de literatura brasileira ano passado, mas tem que promover oficinas e eventos culturais pelo Brasil para viver sem um trabalho de bancário ou coisa assim. Joca Terron é desenhista, Santiago Nazarian é tradutor; cada um dá um jeito de tirar seu ganha-pão.
E meus livros não são propriamente meus. São meus e de mais inúmeros escritores amadores. Por enquanto só consegui publicar em coletâneas e antologias. Por mais que hoje esteja mais facilitado, ainda é complicado publicar um livro só teu. Tem que esperar o momento certo, publicar a obra na hora certa, buscar uma boa editora, fazer um bom contrato; senão, nem seus amigos conseguirão ter acesso ao livro, quanto mais o público em geral. Publicar em antologias é mais fácil.

– Entre poemas, contos, crônicas e textos variados, quais são aqueles com que mais gosta de trabalhar? Há algum que nunca escreveria?

Quando pequena escrevia histórias em quadrinhos, depois passei a contos. Cheguei a escrever uma série deles sobre um gato e uma banana falante que eram detetives. Depois, na adolescência, vivia escrevendo poemas de amor e corações perdidos. Daí deixei de escrever poemas e voltei ao conto. Agora escrevo de tudo. Tenho crônicas, poemas, contos, hai-cais, e, no momento, estou planejando meu romance.

– Como escritora, a internet auxilia ou atrapalha? E como leitora?


Como escritora? Hum… Eu tenho um blog bem pouco visitado. Mas acho a internet ótima para buscar referências, baixar livros, conhecer novas culturas etc. Sempre tem meia dúzia de páginas abertas no meu desktop: wikipedia, google, dicionario online, 4shared, por exemplo, não podem faltar. Como leitora é magnífico.

– Você acha que os blogs são uma boa forma de divulgar trabalhos independentes? Alguma dica?
Sim, com certeza os blogs são uma ótima forma. Mas eu digo que é bem difícil fazer um grupo fiel de leitores, porque na proporção que os blogs se proliferam e os livros são publicados, as pessoas cada vez tem menos tempo de ler. Tanto uma coisa quanto a outra. E tem tanta informação sendo bombardeada todos os dias que, simplesmente, não dá para ler tudo que queremos, ver tudo que queremos ver. Eu mesma ando sem tempo de ler os meus blogs preferidos.

– Para quem gostaria de começar a escrever, e até mesmo tentar uma publicação, quais são as primeiras informações que essa pessoa deveria procurar?
Eu recomendo a Editora Andross, que é uma editora que dá muita chance para novos escritores publicarem alguma coisa, sem custo. Recomendo também fazer um blog e divulgar mesmo, no orkut, em camiseta, no MSN, My space etc. E mandar os textos para tudo quanto é lugar: revistas, jornais, folheto do bairro, da faculdade, coisas assim.

– Sendo uma escritora jovem, você acredita que a idade influencia pouco ou muito em suas produções?
Acho que tenho muito que aprender, mas não vou esperar trinta anos para escrever alguma coisa e publicar. Vou fazendo o que posso.

O blog da Ellen está disponível nos links do Basculante e também no link no nome dela, para quem se interessou pela escritora e deseja saber um pouco mais sobre seu trabalho a bibliografia da mocinha é: Sentido Inverso, Retratos Urbanos, Vide Verso. Todos disponíveis na Livraria Cultura e publicados pela editora Andross.
O quarto livro (antologia) deve ser lançado em março do ano que vem sob o título Ávida Espingarda, publicado pelo Selo demônio negro e organizado por Vicente Pietroforte.

Até a próxima. =D

Anúncios

Ações

Information

3 responses

17 12 2008
silas correa leite

Dez Poemas de Silas Correa Leite

Condomínio Via-Láctea

A lua nova sobre o arranha-céu
Com rímel de nuvens e sorriso de miss
Não sabe de janelas abertas
No enorme Edifício Vulgata
De arquitetura espacial.

O edifício e o condomínio têm luas
Como tem ruínas e alguns fantasmas
Da rua olho todos os sinais
Janelas abertas são ruas no breu
Muito além do noturnal.

A lua e o breu noturno no alto céu
O condomínio e seus desenredos
As luzes e as janelas abertas
Talvez a Lua seja uma
Válvula de escape sideral.
………………………………………………..

No céu noturno da cidade grande
O prédio é só cimento armado
Mas a lua é uma janela
No Condomínio Via Láctea
Como um jogo de pinball.

-0-

Declamar Poemas

Para Regina Benitez

Não fui feito para declamar poemas
Ter timbre, empostar a voz, tempo cênico
E ainda dar tom gutural em tristices letrais.

Não fui feito para decorar poemas
Malemal os crio e os pincho fora
Para o poema saber mesmo quem é que manda.

Não fui feito para teatralizar poemas
Mal os entalho e deixo que singrem
Horizontes nunca dantes naves/gados.

Não fui feito para perolizar poemas
Borboletas são pastos de pássaros
Assim os poemas que se caibam crusoés.

Não fui feito para ser dono de poemas
Eles que se toquem e se materializem
Peles de pedras permitem leituras lacrimais.

Não fui feito nem para fazer poemas
Por isso nem cheira e nem freud a olaria
Apenas uso estoque de presenças jugulares.

Não fui feito eu mesmo. Sou poema
Bípele, cervejólo, bebemoro noiteadeiros
Quando ovulo sou fio-terra em alma nau.

-0-

Poema do Cego Pulando Amarelinha

Para Alberto Frederico Correa Santos

O cego pulando amarelinha
Toma o anjo pela mão
Você só vê o gesto táctil do cego, não
Vê jamais o anjo na sua condução
Em cada estágio de saltar sem pisar na linha.

O cego pulando amarelinha
Parece flutuar num balé
E sonda-o a rua de Itararé inteirinha
Perguntando o que nele enseja tanta fé
Céu e inferno; o cego parece que advinha

O cego e a sua amarelinha
Parece um milagre até
Toma-o pela mão o anjo; o cego se aninha
E pula e salta e vence e acerta o pé
Talvez porque céu ou inferno só dentro da gente é.

-0-

Forfé de Pião Rueiro

A madeira na mão um toco de imbuia cheirosa
Pedindo pro Jora da Marcenaria Estrela tornear
O pião pra jogar com a gurizada na rua descalça
Que a fieira tinha tirado de uma cortina de casa

O Seu Jora só perdeu um instantinho-prosa daí
Surgiu o pião rombudo qual coxinha de frango
Marrom lixado e um prego sem cabeça na ponta
Pro bicho correr doido como a bailar fox-trot

O pião na mão e o movimento no colo da idéia
Rua cheia de piás guris moleques curumins até
O sol de Itararé rachando revólver de mamona
Gibis do Flecha Ligeira na mão e tarde ardendo

Então a fila pra assistir a inauguração do pião
O coração tamborilando rabo de olho na mira
Enrolei a fieira na bundinha do pião maroteiro
E fiz panca de Burt Lancaster depois da maleita

Soltei o pião lazarento (que apelidei de Garrincha)
E ele foi de bubuia e fez reviravolteio na Rua Capilé
Foi um deus-nos-acuda dos guris serelepes torcendo
Pro meu pião querido ir de vareio no rio da bosta

Mas o caipora lazarento fez fricote zumbiu e parou
Na minha mão direita como uma roseira de brincar

Eu era criança e Itararé tinha uma barulhança pueril
Cresci virei peão de pegar no batente e fazer poemas

-0-

Poeta Escolhendo Feijão

“Um poeta escolhendo feijão/
Não parece nada poético/
Antes, piegas; na ótica vão/
Onirismos – metáforas do imagético/
Que pedaços ali se haverão/
Como palavras, no profético?/
(Que caldo na imaginação/
A situação até como arquétipo?)/
Um poeta escolhendo feijão/
Está em lavração errada/
As palavras ali não se serão/
Num peneirar de pedra limada/
Por isso os carunchos ficarão/
Além da situação impensada/
E nesse oficio ele é aleijão/
Como um porco, na feijoada”

-0-

A Identidade da Dor (Poema Para o Centenário da Imigração Japonesa)

Hiroshima ainda está lá
Como um espelho
Uma bomba não mata uma cidade
Uma identidade-povo
Uma idéia-espaço

Nagazaki ainda está lá
E reflete Hiroshima
Não pela radiação mas
Pelo que ambas foram e serão

Restos de Hiroshima
Ainda são Hiroshima
Como escombros de Nagazaki
Têm uma identidade silencial

Ninguém mata Hiroshima ou Nagazaki
Ninguém mata a vida
Ou uma identidade histórica e espacial de vida

A bomba não mata a dor
Do que restou da guerra
E essa dor que doerá infinitalmente
Será Hiroshima
Será Nagazaki
Porque a paz confere a dor
Perpetrada na lágrima
Como um desenho arquitetural na saudade
Que a luz lê em sangue
Nas flores de cerejeiras
Como haicais, no átomo

-0-

La Vie En Rose

Leminski morreu de poesia
Ou de cirrose; se vivo fosse
Naturalmente um outro seria
Talvez vencedor de posse
Caetano que fugiu pra Londres
Não morreu e se socorre
A escrever bugigangas hoje
Como se nunca existisse
Hendrix, Joplin; até Cazuza
Se não morresse o que seria?
Lupíscinio não se fez num dia
Só no infinital da boemia
Renato Russo, Torquato, Capinan
Um parafuso a mais tantas vezes
(Ou o anonimato de uma neura vã
Em celeiros de burgueses?)
A vida é cor-de-rosa na juventude
Depois o decrépito vive amiúde
E na velhice a arte louca vegeta
Artista, vanguardista, poeta
………………………………………………..
Morrer criando toda glosa
Em verso e samba e prosa
Foi o clímax de Noel Rosa
Idolatrado

Morrer de velhice por aí
É muito triste ao condenado
Feito Caimy ou Cauby
Cada um de si mesmo em si
Beirando ser esclerosado.

Melhor morrer no auge a criar, de overdose
Jovem portentoso – no suicídio ou na cirrose

Ou restar-se à decadência vil, pobre coitado
E à existência reles e comum ser condenado

-0-

Tomar Chuva

Algumas vezes existi.
Algumas vezes tomei chuva.
Mas quando tomei chuva eu me senti um átomo da água e ali
Fui rio, nuvem, relâmpago, açude, cisterna, foz e quase voei.

Porque tomar chuva é integrar-se à natureza, ser parte dela
Conjugar o verbo haver no sentido mais pleno de seu assento
Eu a chuva e até algumas lágrimas de alegria, êxtase e contentamento
Como se a minha alma-árvore se lavasse por dentro…

E fui chuva e guri e mar e senti minha alma flutuar numa nuvem-nau
Porque eu era a maravilhosa Chuva naquele bendito magno momento

Então a chuva me reconhecendo como parte dela (que o meu espírito o é)
Parou de ser peneiradinha naquele tardiscar cor de rosa-pitanga de Itararé
E o lírio-laranja do sol se abriu e eu me vi ali
No fio-terra, o guri
Angelicalmente de alma lavada
Pronto para enfrentar a cara amarrada
Da vida distante que em busca de mim mesmo a peregrinar escolhi.

-0-

MANDRAKE

O pai prendia a rua:
Cristão não brinca na rua.
O pai desinventava a bola de capotão
De Garrincha, Bellini, Rivelino, Pelé, Tostão.
Crente não joga bola, Deus não gosta.
O pai desproporcionava a infância:
Ler gibis é pecado, não vai pro céu.
E eu era fã do Mandrake, Príncipe Valente,
Flecha Ligeira, Fantasma, Saci e Flash Gordon.

De tanto ler – em casa era castigo ler bastante
De dicionários e jornais à Bíblia
Fiz da minha imaginação uma rua aberta para além da humanidade.
Vi pegadas no céu. Tive rasuras de peregrinações.
Sempre fui muito grosso no futebol, cavalo mesmo.
Um perna de pau que sabia que ki-chute e unha encravada não combinavam
Quando não, por ser crente, era um manteiga derretida, canela de vidro
Que mal sabia dar direito o drible da vaca louca.

Da Poesia fiz almanaque rueiro em fugas letrais
Gibis clandestinos povoaram minha abstração em lavouras-intimidades
Com entrudos de histórias em quadrinhos como se cinesmacope na alma-avelã.
O poeta-caminheiro a escrever acontecências do arco da velha
Pomposos causos pra boi dormir
Entre invencionices desparafusadas e poemas em polaroid.

Assim vim pela vida sendo um guri eterno
Com medo de Deus, com medo do inferno
Chutando a pelota do amargo mundo legal
Para o desmundo das idéias, muito além da triste vida real

-0-

Álbum de Figurinhas

Ai que saudades que eu tenho
Dos meus álbuns de figurinhas de coleção
Que eu cuidava todo trancham, todo pimpão
Quando guri lá em Itararé
À sombra do lar and jazz
Que os anos não trazem mais.

Bolinho de piruá, capilé de groselha preta
O pai floreando o acordeão ou a clarineta
Eu com gibis do Tarzan ou do Flecha Ligeira
E o álbum que devidamente preenchido dava de brinde
De bola oficial de futebol a panela-de-pressão

Com meu belo ki-chute pretinho
Tomava crush de canudinho, e de boné
Jogava bate-bafo na rua descalça e rapelava
A petizada pidoncha da periferia de Itararé.

Um dia chorei de montão
Porque por mais que a vida por bem ou mal ensine
É a frustração na infância que a desilusão define:

-Deixei de ganhar uma bola da capotão
Porque na minha bendita coleção
Faltou uma figurinha carimbada do Belini.

-0-

Silas Correa Leite, Itararé-SP
Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos (SP).
Blogues: http://www.portas-lapsos.zip.net ou http://www.campodetrigocomcorvos.zip.net
E-mail: poesilas@terra.com.br

2 01 2009
edson

deveria haver uma campanha pela desartistificação…
chegaremos ao ponto onde haverá mais agentes de cultura do que público…
enquanto isso, vamos seguir tentando arrumar um dos últimos e exíguo lugar nessa babilônia…
HUGS!!!

22 05 2009
Ulisses Adirt

A Ellen é mesmo ótima. Leio tudo o q ela publica no blog fascinado. Pena q ela tenha poucos leitores.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s